Sinto estar em débito com vocês. A sentença que acabam de ler tem caráter ambíguo e deve ser interpretada em ambos os sentidos. Por isso, glorifico-me com a redenção desta postagem, na qual explorarei o início da banda e o por quê de se tornar independente, quando a execução de covers se mostra mais lucrativa.
A Oito Mãos não surgiu assim desde o início. Várias mãos passaram por aqui até a final composição: André Stradiotto Matins e Tiago Saura foram dois importantes personagens que, por circunstâncias da vida, não puderam estar conosco na atual empreitada.
Felipe Bier e Leandro Publio também já se aventuraram por outras bandas. Tocaram em casamentos e partilharam do comum – e necessário – início de qualquer banda: a execução de músicas cover.
Como a postagem é minha, falarei da experiência que partilhei. E começo minha jornada nos idos de 2000, quando cursava o 1º colegial juntamente com o Bier. Lá, um amigo em comum – André Stradiotto – fez despertar em nós o gosto pela música. Não que nós não a apreciássemos, mas não nutríamos interesse – na ocasião – por aprender a tocar um instrumento: eu queria ser advogado e o Bier, médico.
André nos levou a lojas de música em Campinas, onde tomamos contatos com vários instrumentos. Porém, em determinado dia, recordo-me de ter sido por ele surpreendido no meio de uma aula – salvo engano, de literatura –, onde bradou: “Adhemar, cê vai tocar batera”.
Fiquei com aquilo na cabeça... admirava o instrumento, mas nunca pensei em toca-lo. Minha mãe tinha violão e piano em casa e minha família é daquelas que acha que “bateria é coisa de louco”. No entanto, era o que eu queria.
Nesse mesmo momento, surgia em nós uma paixão quase que incondicional pelo grunge de Seattle – especialmente pela banda Nirvana. Sob influência do André, claro, ficamos “viciados” nas músicas do power trio Kurt, Chris e Dave. Só precisávamos adquirir nossos instrumentos.
Com o Bier a coisa foi mais fácil: ganhou um baixo Washburn e um amplificador Meteoro Thor na mesma semana. Eu, porém, enfrentei a insatisfação familiar pelo instrumento escolhido, percebendo que minha jornada seria um pouco mais difícil.
Assim, alguns meses depois, juntei uma (pequena) grana e comprei uma batera LIXO (lixo MESMO, do tipo que a gente joga FORA). Não tinha marca e nem peles de resposta. A caixa era Odery, de madeira, mas com afinações “de bicicleta”. O pacote incluiu, ainda, uma máquina de cymbal com os hi-hats absolutamente deploráveis. Mas eu estava feliz! Feliz por ter comprado a batelixo com O MEU dinheiro e feliz por enfrentar o preconceito dentro de casa.
Botei a monstruosa no meio da sala (morava em apartamento, na ocasião) e tocava todos os dias – mais pra mostrar a meus pais que não era “fogo de palha” do que pra praticar alguma coisa. E eles se convenceram de que aquela minha vontade não era passageira.
Minha sorte é que a batera era muito feia e muito ruim, o que acelerou o processo de sua substituição por minha atual Premier XPK Birch – presente de minha mãe. Ela foi utilizada em shows com as bandas pelas quais passei, bem como na gravação do “vejo cores nas coisas”.
Com os instrumentos, montamos a banda no final de 2000. O nome sugerido era ridículo para uma banda que se prestava a tocar as músicas do Nirvana: “Kaya”. Mas durou uns anos, até que crescemos, evoluímos e... nos separamos!
Entre indas e vindas, montei com outros garotos uma banda cover de Beatles, conhecida como “Silverbeetles”, até hoje bastante atuante. Não sei qual a atual formação, mas era muito boa na minha época. Tinha um garoto que era um verdadeiro gênio musical e outro que nos obrigava a ensaiar com MUITA DISCIPLINA – o que foi muito bom, pois criava na gente senso de responsabilidade musical e deixava as músicas redondinhas.
Ao mesmo tempo, tentava montar uma banda com projetos próprios com o Bier e com o Publio – que já era também, na ocasião, meu amigo-irmão.
Em determinado dia, por volta de 2004 ou 2005, deixei a Silverbeetles mais por estar de saco cheio de fazer cover do que qualquer outra coisa. Alguns me chamaram de maluco – visto estar a banda começando a chamar a atenção do público –, mas eu sou daqueles que acha que nós temos de correr atrás de nossos sonhos – e a minha “fase cover” tinha definitivamente passado.
Assim, foquei na banda com o Bier e Publio: procuramos integrantes que partilhassem nossos gostos musicais e, depois de muito tocar Oasis e Coldplay, encontramos o maluco do André Leonardo via Orkut: nascia o que hoje é a Oito Mãos.
O ano era 2005 e propusemos a criação de uma banda para trabalho próprio. Em pouco mais de quatro meses, gravamos um álbum/EP/demo com 08 músicas, chamado “inverno inusitado”. Inverno porque foi gravado em julho, e inusitado porque foi uma verdadeira atipicidade na vida de todos nós. E ficou legal – esteticamente falando. Em resumo: a idéia era boa, as músicas eram boas, mas a gravação foi ridícula. Não tínhamos experiência e o estúdio – que abstenho de citar o nome – muito, mas MUITO ruim.
Assim, não obtivemos retorno nenhum com o “trabalho”, até que o Pompeo nos ouviu sei lá como e notou algum potencial na banda. Nos conhecemos na padaria da esquina da rua do André, onde ensaiamos até hoje. E ele, com aquele jeito arrogante/fodão de ser, se tornou nosso amigo e acabou que hoje nos produz, gravando, compondo e tocando com a gente.
Desse casamento, surgiram nossos singles “sei lá”, “guarde a última dança”, “história de outra vez” – regravação do “hit” que constava no “inverno inusitado” – e “grave lacuna” – com a qual vencemos importantes festivais.
Gravamos, durante o ano de 2009, o disco “vejo cores nas coisas”. Nossa intenção – sem querer transbordar arrogância, mas justificando com o fato de não ser nossa pretensão o sucesso e o reconhecimento – foi fazer músicas que nós gostaríamos de ouvir, e não agradar ninguém. Assim, pode ter a certeza de que isso que você ouve em “vejo cores” é exatamente o que queríamos que estivesse ali, pois gostamos de tudo que fizemos.
Acho que falo pela banda toda quando digo que nos sentimos muito gratos com a repercussão do disco, não por querer fazer sucesso ou ser notados, mas por saber que tem mais gente por aí que pensa como a gente. Isso é muito bacana e gratificante, pois aquela sensação de vazio e insatisfação com tudo que a mídia nos “obriga” a ouvir não é um evento isolado nos sentimentos somente da Oito Mãos. E isso nos fortalece – tanto para compor e executar as músicas, quanto para gostar daquilo que fazemos – que é, tenha certeza, de coração.
Adhemar.
Mostrando postagens com marcador oito mãos história como surgiu adhemar banda. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador oito mãos história como surgiu adhemar banda. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 16 de março de 2010
Assinar:
Postagens (Atom)
